Conversas na Biblioteca

€14.70

Autor: Carlos Cardoso Aveline

Editora: Edifurb, Brasil

Ano: 2007

Páginas: 170

Estado: Novo. Capa mole.  

ISBN: 9788571141780

O escritor Jorge Luis Borges afirmou: “Que outros se jactem das páginas que escreveram: a mim me orgulham as páginas que tenho lido.” [1]

De fato, o ato de ler - embora na aparência simples - é uma experiência potencialmente mágica. Os bons livros podem ser amigos tão fiéis quanto nossos cachorros, embora mais sábios, e mais silenciosos. Os livros inspiram, aconselham e protegem. Sua leitura é uma forma de conversa interior. Nas suas páginas é possível trocar ideias com pensadores de países distantes.

Uma biblioteca funciona, entre outras coisas, como uma máquina do tempo. Ela nos possibilita viajar além do mundo convencional, e nos coloca em contato com o pensamento e a presença sutil de sábios de outras épocas. Isso nos ajuda a viver mais profundamente o dia de hoje e a construir um melhor dia de amanhã. Lin Yutang escreveu:

“O homem que não tem o costume de ler está aprisionado num mundo imediato, em relação ao tempo e espaço. Sua vida cai numa rotina fixa (...). Mas quando toma em suas mãos um livro, penetra em um mundo diferente e, se o livro é bom, vê-se imediatamente em contato com um dos melhores conversadores do mundo. Esse conversador o transporta a um país diferente, ou a uma época diferente, ou lhe confia alguns dos seus pesares pessoais, ou discute com ele (...) um aspecto da vida de que o leitor nada sabe.”  [2]

O livro muda o modo como sentimos a passagem do tempo. Talvez tratemos o tempo como se ele avançasse apenas em linha reta. Na realidade, ele é cíclico e circular. Avança em espiral, e está sempre a retomar e resgatar situações do passado desde um nível superior de experiência e evolução.

Graças à circularidade dos ritmos, os mais diferentes tempos passados e futuros estão sutilmente presentes em cada instante do agora eterno.

Devido ao fato de que o momento presente inclui em si todos os tempos passados e futuros, podemos perceber que seres como Benjamin Franklin, São João da Cruz, Platão e Albert Einstein são, de certo modo, contemporâneos entre si. Todos eles influenciam a vida cotidiana no século 21. Eles não só têm algo importante a dizer para o momento atual, mas são escutados pelos cidadãos mais atentos. 

Cabe, no entanto, perguntar:

“Se os grandes sábios do passado são de certo modo nossos contemporâneos, como será possível conviver mais de perto com eles?”

E o filósofo Lúcio Sêneca, situado cronologicamente no império romano, responde: 

“Só aqueles que têm quietude, que se desocupam para aceitar a sabedoria, só eles vivem; porque não só eles aproveitam seu tempo, mas também acrescentam a ele todas as épocas, tornando seus próprios todos os anos que já passaram.”

Mas Sêneca diz ainda:

“Nenhum século nos é proibido, a todos os séculos somos admitidos. Se com grandeza de ânimo quisermos sair da imbecilidade humana, haverá muitos tempos em que poderemos expandir-nos. Poderemos discutir com Sócrates, polemizar com Carnéades [3], aquietar-nos com Epicuro, vencer com os estóicos as inclinações humanas, melhorar essa inclinação com os [filósofos] cínicos, e andar com a natureza em companhia de todas as idades. Como, então (...) não nos entregamos de todo coração a aquelas coisas que são imensas e eternas e que se comunicam com os melhores [sábios de todos os tempos]?” [4]

Se aceitamos a realidade dessa comunicação interior, que vai além da visão do tempo como se ele fosse uma linha reta, cabe ainda uma pergunta. Em que território sutil, ou nível da consciência essencial, ocorre esse diálogo aberto que reúne tantas vozes, situadas em tempos e espaços tão diversos?

Devemos concluir que, seguramente, não é no âmbito estreito das coisas superficiais. Tampouco no ritmo entrecortado do curto prazo mais imediato. Essas vozes se encontram no território do conhecimento universal, um saber que é relativamente eterno e que tem recebido diferentes nomes, em diferentes culturas. Os hindus o chamam de Gupta Vidya - a ciência secreta -, e de Brahma Vidya, a sabedoria divina. Para os chineses, esse espaço sutil é o Tao, o princípio supremo. Amônio Sacas, de Alexandria, usou a palavra Teosofia - termo que significa, literalmente, “a sabedoria dos deuses”.

NOTAS:

[1] Versos do poema “Um Leitor”, no volume Elogio da Sombra - Um Ensaio Autobiográfico, Jorge Luis Borges, Ed. Globo, SP, 1993, p. 65.

[2] A Importância de Viver, Lin Yutang, Editora Globo, RJ/Porto Alegre/SP, quarta edição, 1959, 360 pp., trad. de Mário Quintana. Ver p. 302.

[3] Carnéades de Cirene, filósofo cético, nasceu em 219 a.C. e morreu aos 90 anos, em 129 a.C.

[4] Lúcio Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.) , no texto De la Brevedad de la Vida, em Tratados Filosóficos, Cartas, Editorial Porrúa, México, 1998, p. 104.